Esporte

Brasileira nega futebol, vira ícone do skate e tenta mudar esporte feminino

Sexta-feira, 06 de setembro de 2013

Batom, rímel e uma bandana amarrada na cabeça são os acessórios indispensáveis para Leticia Bufoni, uma das atuais estrelas do skate mundial. Aos 20 anos, a brasileira lidera o ranking mundial da categoria street e soma dois ouros em X Games. O esporte, porém, poderia ter sido outro e ela, talvez, não fosse tão vitoriosa.

Quando era adolescente, Leticia foi chamada para jogar futebol no Juventus, time do tradicional bairro da Mooca. Talentosa com os pés, ela ficou feliz com a proposta, mas nem chegou a pensar em aceitá-la, pois já estava encantada com as manobras do skate. Começou a praticar com apenas 10 anos e, aos 12, ganhou o primeiro patrocínio, fruto de vitórias em competições nacionais. Aos 14 anos, participou de seu primeiro X Games, o maior evento de esportes radicais do mundo. Com isso, foi morar nos Estados Unidos e deslanchou no esporte.

No começo, porém, Leticia teve de enfrentar a resistência dos pais, que priorizavam os estudos da filha ao esporte "de noia", e o preconceito, até hoje presente, por ser mulher.

"Muita gente já me olhou torto por eu andar de skate. Essa visão geral de que skate é um esporte masculino atrapalha demais a formação de novos talentos. Um dos meus objetivos é tentar mudar isso e ajudar a transformar o skate feminino", revela.

Em entrevista ao UOL Esporte, Leticia explicou como pretende mudar a "cara" do skate feminino, contou um pouco sobre as dificuldades no início da carreira e sobre o bom momento. Confira abaixo.

UOL Esporte: Você ganhou o "Real Woman" da ESPN, na avaliação dos jurados. O que este reconhecimento significa para você?

Leticia Bufoni: É uma premiação importantíssima, pois vejo o reconhecimento de todo o meu trabalho para alcançar uma boa performance. O melhor de tudo é que a premiação reuniu os melhores atletas de diferentes esportes, o que torna o prêmio ainda mais especial e difícil de ser conquistado.

Você conquistou primeiro ouro em X Games da sua carreira em Foz do Iguaçu. Como você se sentiu por garantir esta conquista no Brasil? Você pode dizer que está no auge da carreira?

O X Games de Foz do Iguaçu representou muito na minha carreira. Eu estava muito nervosa, pois era pra ter ficado mais tempo parada. Depois de muito esforço, consegui voltar a andar e recebi alta poucos dias antes da competição. Não tem nada melhor do que ter levado o ouro no primeiro campeonato após a operação. O melhor de tudo é que foi aqui dentro do Brasil, com todo o apoio da torcida. Na hora eu não senti nenhuma dor graças ao nervosismo, mas depois o meu pé ficou muito inchado. Estou em uma grande fase da minha carreira e meu objetivo é sempre melhorar.

O que ainda falta você conquistar?

Meu objetivo é estar sempre bem para competir em alto nível e ganhar todos os campeonatos que eu conseguir disputar. Todas as medalhas de X Games que ganhei foram extremamente importantes e acredito que a próxima competição será sempre a mais importante.

Quem você apontaria como a sua principal rival hoje?

Considero minhas principais rivais as skatistas que estiveram em evidência nos últimos X Games: Alexis Sabloni, Marisa Dal Santo, Lacey Baker, dentre outras com grande potencial.

Como você conheceu o skate? Por que decidiu praticar?

Ganhei o primeiro skate quando era criança, por volta dos 10 anos. No meu bairro tinha muito menino, eu gostava de jogar futebol e comecei arriscar manobras radicais com o skate. Eu jogava melhor que os meninos e até cheguei a receber proposta para jogar futebol, mas ao assistir vídeos de skate, decidi continuar nesse caminho. Meus amigos e minha família viram que eu poderia ter algum futuro com isso, e me apoiaram desde então.

O skate é um esporte bem difícil, você teve dificuldades para aprender?

Nunca sonhei em ser profissional, eu aprendi na rua mesmo com meus amigos e depois com um professor que me ajudou bastante nas principais técnicas. É um esporte difícil, mas que com a prática dá pra aprender rapidinho.

Quem é seu grande ídolo no esporte?

Meus grandes ídolos são os skatistas Andrew Reynolds e Bob Burnquist, além de Elissa Steamer.

Você começou a carreira muito nova. Como seus pais reagiram a sua decisão de ter o skate como profissão?

Meus pais sempre valorizaram muito os estudos na minha família, mas eles perceberam que eu poderia ter um futuro bacana no esporte quando eu comecei a ganhar todos os campeonatos que participava aqui no Brasil. O apoio deles foi muito importante para o sucesso da minha carreira.

Você se arrepende de ter começado tão nova?

Não, pois tudo aconteceu de maneira muito rápida e hoje estou aqui para provar que fiz tudo da melhor maneira.

Vi uma declaração sua sobre uma resistência do seu pai a você andar de skate no início. Você pode falar a respeito?

Assim como muitas pessoas, no começo o meu pai achava que skate era esporte de homem, de "noias".  A grande virada foi quando ele me levou para participar de um campeonato em que eu venci e ele percebeu que havia muitos outros pais para acompanhar os filhos. Desde então, também conquistei a confiança de meus pais.

Há uma visão negativa em relação às mulheres que andam de skate? Você já sofreu preconceito por isso?

Muita gente já me olhou torto por eu andar de skate. Essa visão geral de que skate é um esporte masculino atrapalha demais a formação de novos talentos. Um dos meus objetivos é tentar mudar isso e ajudar a transformar o skate feminino, divulgando que essa também é uma modalidade que pode e deve ser praticada por mulheres.

Você fez um ensaio para uma campanha publicitária em que aparece andando de skate de vestido e salto alto. Qual você acha que foi a repercussão desta propaganda?

Foi bem bacana a repercussão dessa campanha. Na verdade aquela foto foi uma edição, pois é impossível fazer manobras de salto, mas acredito que contribuí bastante para mostrar que uma skatista pode se vestir com características mais femininas.

Vi uma declaração sua de que você quer "mudar a cara do skate feminino". Mudar como?

Eu quero mostrar que as mulheres podem andar de skate e ter uma vida normal, sem esse tipo de preconceito contra o esporte. Eu me cuido bastante, gosto de usar roupas femininas, gosto de maquiagem e quero mostrar que isso é possível no skate. Também gostaria que nosso país disponibilizasse mais espaços e rampas para treinamento, pois isso faz muita falta para descobrir novos talentos.

Você é vaidosa? O que faz para se cuidar?

Sou vaidosa sim, gosto de me cuidar e procuro usar batom, rímel e acessórios de vestuário. Isso é importante para qualquer mulher.

Você está morando nos Estados Unidos, certo? Como foi se mudar para outro país tão nova? Você teve dificuldades?

Sim, moro na Califórnia. No começo foi complicado sentir a falta da minha família, mas precisei fazer essa escolha pois os principais campeonatos e pistas estão fora do país. Hoje em dia já estou bem mais acostumada, o que ainda atrapalha é a saudade da família.

Você ainda mora com outras skatistas brasileiras? Como é a sua relação com elas?

Elas me ajudaram bastante quando saí do Brasil, foi importantíssima essa relação próxima com as outras skatistas.

Como você encara o apelido de Axl Rose? É fã de Guns N' Roses? Já quis conhecer o cantor?

Sou roqueira e gosto bastante do Axl Rose, inclusive tenho o rosto dele tatuado na batata da perna. O lance de usar a bandana parecida com a do Axl foi coincidência, eu uso mesmo para prender o cabelo durante as competições.

E a sua banda "As Catantes", ainda existe? Vocês fazem shows? Como você concilia a carreira no esporte com a carreira na música? De onde veio a ideia de formar a banda?

A ideia veio por eu gostar bastante de rock mesmo. Hoje gosto de tocar instrumentos nas horas de folga, quando sobra um tempinho livre, ou nas férias.

Você pratica outros esportes além do skate?

Gosto muito de jogar futebol, sou corinthiana fanática. Cheguei a ser chamada para jogar futebol no Juventus, time da Zona Leste, mas nesse momento eu teria que largar o skate e decidi não dar continuidade na carreira.

O que você acha que falta para o skate deslanchar no Brasil?

Faltam pistas de qualidade e torneios com alto nível de competividade. As administrações públicas deveriam se atentar para a construção e manutenção das pistas já existentes. Sem isso é praticamente impossível formar talentos.

Quando vem para o Brasil, onde anda de skate?

Costumo andar bastante na região onde fui criada, na pista de Tiquatira, no bairro da Penha, Zona Leste de São Paulo.

Que dica você daria para uma garota que está aprendendo a andar de skate e que pretende seguir carreira no esporte?

A minha dica é não ligar para o preconceito, pois isso é besteira e podemos conseguir superá-lo sempre. É preciso ter motivação, treinar, cair, levantar e querer aprender sempre.

Fonte: Portal UOL

Foto(s): Joe Faraoni / ESPN Library / Divulgação / Reprodução Portal UOL

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